Amantes de Bergman e cinema, interessados em tecnologia e inovações tanto em termos de cenário como de projeção no teatro, agendem-se! Vem aí Strindbergman, atração internacional que chega a São Paulo depois de apresentações em Paris. O espetáculo estreia dia 7 de novembro, sábado, às 21 horas, no Viga Espaço Cênico.
Estabelecer um diálogo entre a palavra e o silêncio. Uma personagem que não fala manipula outra que não consegue se calar. Esse é o mote da produção francesa que propõe o encontro entre a peça e o filme dos artistas suecos August Strindberg e Ingmar Bergman, respectivamente, A Mais Forte (1888) e Persona (1966).
No palco estão a brasileira Nicole Cordery e a franco-brasileira Janaína Suaudeau, sob a direção francesa de Marie Dupleix, da companhia parisiense Les Mistons. A atriz Clara Carvalho, integrante do Grupo Tapa, faz participação especial. O espetáculo integra o Ano da França no Brasil e faz parte do Festival Strindberg, realizado no Viga em novembro e dezembro.
A ideia nasceu dos estudos da atriz Nicole Cordery, que defendeu sua dissertação na Sorbonne Nouvelle, em Paris, sobre a obra de August Strindberg (1849 - 1912). A peça A Mais Forte, de 1888, inspirou o filme Persona, de 1966. Muitos outros textos e a autobiografia de Strindberg também conduziram Bergman a escrever e filmar roteiros, explica Nicole.
A peça de Strindberg que realmente dialoga com Persona é A Mais Forte, em que, além da questão formal, onde mulher fala o tempo todo, impulsionada pelo silêncio da outra, temos o cruzamento de elementos temáticos, como a maternidade, o mundo do teatro, o riso e a possessão de personalidade entre dois personagens, completa.
A atriz, que fez parte do Grupo TAPA durante sete anos, conta que o projeto existe desde 2006. A partir de 2007, começou a produção em parceria com Janaína Suaudeau, uma das poucas atrizes estrangeiras a ter cursado o concorrido Conservatório Nacional de Paris, e o diretor Didier Moine, que faleceu no meio do processo. A diretora Marie Dupleix, sócia e amiga de Didier, nos assumiu completamente em sua companhia, chamada Les Mistons, alguns meses depois da morte dele.
O projeto faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil, mas no recorte considerado como mostra paralela. São produções que não recebem verba do Culture France - órgão que subsidia as companhias francesas. Por esse motivo, decidimos partir para o patrocínio em pequena escala, conta a atriz e produtora, que lançou pelo site da peça pedidos de contribuições a amigos e admiradores de Bergman e Strindberg.
Tudo isso pode parecer loucura, mas o fato é que conseguimos o valor total da nossa turnê, comemora Nicole. A atriz e produtora destaca que muitas produções hoje em dia começam a se bancar sem o patrocínio de empresas públicas ou privadas e ressalta o caso da eleição de Barack Obama, que teve a candidatura bancada por contribuições também feitas via internet.
Memórias de espetáculos passados Na história, a atriz Elisabeth Vogler (Nicole Cordery) se torna silenciosa e imóvel. A jovem enfermeira Alma (Janaína Suaudeau) é destacada para tratá-la. Entre delírios e as lembranças de espetáculos passados, uma estranha relação de simbiose e manipulação toma forma entre as duas personagens através do silêncio.
A atriz se isola em uma casa de praia com a enfermeira, que fica fascinada pelo seu silêncio. Alma tenta preencher o silêncio com suas próprias palavras e, sem perceber, conta toda a sua vida, seus casos, seus desejos, seus traumas. À medida que o silêncio de uma se intensifica, as palavras da outra tornam-se mais provocadoras.
Uma terceira personagem tem papel fundamental na trama. Trata-se da doutora interpretada pela atriz Clara Carvalho. É ela quem abre e fecha a peça, e que estabelece uma ponte com o público, conta Nicole, que já havia trabalhado com Clara no Grupo Tapa.
Nicole conta que um papel como o de Elisabeth Vogler exige um controle corporal absoluto e bem desenhado. Qualquer respiração de Elisabeth pode transmitir um significado. Além de não falar, trabalho a imobilidade do personagem, principalmente no começo da peça, conta. O movimento é necessário para a passagem do tempo, e esse é o grande desafio, completa.
O espetáculo, que junta Bergman e Strindberg, conta com a intervenção de um vídeo. Referências do texto de A Mais Forte, peça curta do dramaturgo, aparecem na tela, enquanto o roteiro do cineasta se desenrola no palco. "O que nos interessou no processo de criação do nosso espetáculo não foi reproduzir no teatro um filme, ou filmar uma peça, mas estabelecer a disputa entre quem é a mais forte tanto no roteiro do Bergman como na peça do Strindberg, explica Nicole.
O que me seduz nesse projeto é tudo que está em torno do silêncio e da palavra e, sobretudo, o processo psicanalítico inserido nessa relação. Na minha direção tento tornar esse universo simbólico acessível ao público, diz a diretora Marie Dupleix à Revista Brazuca, publicada em Paris.
Sobre o autor
Johan August Strindberg (1849 - 1912), pintor, escritor e dramaturgo sueco, é um dos mais importantes dramaturgos do século XIX, ao lado de Henrik Ibsen e Anton Tchecov. Com as suas obras em prosa e os seus dramas, foi o grande destaque do naturalismo na Suécia e, ao mesmo tempo, o precursor do expressionismo e do surrealismo no teatro universal. Em suas peças autobiográficas, recriou ainda a sua problemática pessoal: três fracassos matrimoniais, solidão e abatimento espiritual. As suas obras impregnadas pela tristeza O Pai (1887) e Senhorita Júlia (1888), assim como as peças Páscoa e A Dança da Morte (ambas de 1891), ilustram esses conflitos. O Pelicano, Sonata dos Espectros, A Casa Queimada e A Tempestade (de 1907) já assinalam o caminho para o simbolismo. Após um longo período na França, na Suíça, na Alemanha e na Dinamarca, Strindberg regressa a Estocolmo em 1899, onde funda, em 1907, o Teatro Íntimo. Morre em 1912, de câncer no estômago, deixando romances autobiográficos e peças teatrais, poesia, pintura e ensaios sobre os mais diversos assuntos.
Sobre Ingmar Bergman
Ingmar Bergman nasceu em 14 de julho de 1918 em Uppsala, ao norte de Estocolmo. Filho de um pastor protestante, foi educado de maneira severa e austera. Essa formação religiosa marcou seu caráter. Estudou na Universidade de Estocolmo e aprendeu a arte da direção com um grupo de teatro estudantil, levando para a tela grande obras de Strindberg e Shakespeare. Em 1976 foi viver na Alemanha, devido a problemas com o fisco sueco, e em seguida estreou O Ovo da Serpente, sobre a ascensão do Nazismo. De volta à Suécia, filmou Fanny e Alexander, uma obra sobre sua infância e sua paixão pelo espetáculo que lhe rendeu quatro Oscars. Comandante da Legião de Honra, membro da Academia de Letras da Suécia e reputado dramaturgo, Bergman revelou sua vida privada e profissional nos livros Lanterna Mágica (1987), Imagens (1993) e Crianças de Domingo (1994), adaptado para as telas por seu filho Daniel. Casado cinco vezes, Bergman teve nove filhos. Ele morreu em 2007. (Adriana Balsanelli/outubro 2009)
Roteiro:
Strindbergman Estreia dia 7 de novembro, sábado, às 21h, no Viga Espaço Cênico.
Texto: A Mais Forte de August Strindberg e Persona de Ingmar Bergman
Tradução - Diego Viana.
Com a Companhia Les Mistons - Nicole Cordery, Janaína Suaudeau e Clara Carvalho.
Direção - Marie Dupleix.
Assistente de Direção - Élodie Festal.
Cenografia, Imagens e Luz - Nicolas Simonin.
Assistente Imagens - Florence Valéro.
Figurinos - Anne Bothuon. Assistente Figurinos - Caroline Révillion.
Som - Arnaud Ledoux.
Objetos de Cena - Rita Carelli.
Maquiagem - Maud Baron.
Diretor de Palco - Jérôme Pratx.
Concepção Gráfica: Leonardo Miranda.
Produção São Paulo - Ana Paula Cassettari
Temporada: de 7 de novembro a 20 de dezembro. Sextas e sábados, às 21 horas e domingos, às 19 horas. Ingressos R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia entrada).
Reservas pelo site www.strindbergman.com. Censura: 14 anos. Duração: 80 minutos.
VIGA Espaço Cênico - Rua Capote Valente, 1323 Pinheiros (ao lado do metrô Sumaré). Tel: (11) 3801-1843. Faz reserva por telefone. Capacidade 70 lugares. Aceita cheque. Não aceita cartão. Estacionamento próximo, na Rua Amália de Noronha, 137 Ao lado do metrô Sumaré
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