Bibliografia
Johann Wofgang von Goethe, o grande poeta e pensador alemão, nasceu em 28 de agosto de 1749 em Frankfurt sobre o Meno.
O pai Johan Kaspar Goethe, um advogado rico conselheiro da corte de Frederico II (1712-1786), era homem austero e culto, entusiasmado pela ciência e amante das artes. A mãe Katharine Elizabeth Textor, de uma aristocrata de Frankfurt vinte anos mais jovem que o marido, era pessoa alegre e disposta e tinha especial talento para contar estórias. Wolfgang dirá anos mais tarde que herdou do pai "a conduta séria da vida" e, da mãe, "a natureza alegre e o gosto de narrar".
Quando tinha dez anos, Frankfurt foi ocupada pelos franceses. O menino ouvia falar a língua e entusiasmava-se com as referências e os elogios feitos aos escritores franceses: Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire (1694-1778). O próprio chefe das tropas invasoras hospedou-se na casa de seus pais. A cultura francesa, e não a alemã, portanto, é que incentivou a vocação literária de Goethe, que já ensaiava os primeiros versos.
Outra influência sobre sua vida foram as mulheres. Goethe foi, desde a infância, apaixonado por mulheres. Desde Gretchem, quando Goethe tinha apenas 12 anos, passando por Charlotte von Stein, por sua esposa Christiane e, enfim, alguns amores tardios após a morte de sua Christiane.
Christiane Vulpius, tinha 23 anos e era operária numa fábrica de flores artificiais quando, numa manhã cheia de sol, bate à porta da casa de Goethe: vem pedir um favor para o irmão. Goethe contempla as linhas delicadas do seu rosto e os longos cabelos ondulados. Sente o coração tocado pela beleza e pela simplicidade da moça. Surge mais uma paixão amorosa: esta real e duradoura. Christiane torna-se a companheira de Goethe, dando-lhe um filho no dia do Natal de 1789. Têm mais quatro filhos, todos falecidos logo após o nascimento. Mas somente dezoito anos depois Goethe resolveria casar-se com ela.
"Não há nenhuma linha, em "Afinidades Eletivas", que eu não a tenha vivido".
Isso também é relativamente verdade sobre toda a sua obra. Até em Fausto reconhecemos o Poeta no fim de sua vida, questionando sua própria trajetória e refletindo sobre a vida, a morte e o eterno combate entre o bem e o mal, o desejo e a razão.
Um grupo, conhecido como a "geração de 1750 - Goethe, Schiller (1759-1805), Klinger (1752-1831), Lenz (1750-1792), entre outros - iniciou um movimento sem precedentes, o Sturm und Drang (denominação tirada do título da peça de Klinger, Tempestade e Ímpeto).
O movimento se opunha ao Iluminismo, que afirmava o predomínio da razão sobre os demais valores do homem e do mundo, colocando a vida como valor supremo e recusando todas as normas que, embora válidas racionalmente, pudessem limitar o desenvolvimento individual.
O Sturm und Drang rompeu violentamente com conceitos e esquemas que regulavam as relações individuais e sociais, políticas e morais. Repercutiu profundamente na arte, proclamando a liberdade absoluta do artista, cuja produção haveria de ser expressão do seu poder criador e não fruto da obediência a preceitos e técnicas formais preestabelecidos. A genialidade do artista é que ditaria as normas para as suas obras. O ímpeto com que os iniciadores do movimento defendiam essas idéias suscitou, na Alemanha, uma verdadeira revolução em todos os campos da cultura e da vida.
Na literatura a aceitação foi completa e apaixonada. A produção literária na Alemanha não tinha, até então, uma nítida fisionomia de originalidade, eis que se ressentia da influência francesa. A própria língua não era prestigiada: "uma língua boa para os cavalos e para rezar", costumava dizer o Rei Frederico II da Prússia.
Em 1775, o Duque Carlos Augusto (1757-1828) convida-o para administrar o ducado de Weimar, onde Johann Sebastian Bach (1685-1750), um século antes, tinha realizado sua aprendizagem musical. Goethe aceita, sabendo que essa decisão mudará o rumo de sua vida. O contato com a realidade impõe-lhe estudos de geologia, botânica, mineralogia e anatomia. A impetuosidade que havia caracterizado os anos da juventude diminui com o desempenho do trabalho rotineiro, que o absorve inteiramente.
Sua vasta obra compreende, além das inúmeras peças dramáticas, como o célebre Fausto, romances, contos, poesia lírica, cartas e descrições de viagens, assim como estudos de ciências humanas e naturais, em que se destacam a Teoria das cores e a Metamorfose das plantas.
Com seu pensamento e arte, influenciou a cultura de toda uma época. Todos os grandes nomes deste período estiveram envolvidos nesse processo. Goethe e Weimar, cidade em que passou os anos mais produtivos de sua vida, podem ser citados, de um só fôlego, como sinônimos do classicismo alemão. Uma contribuição de peso para a história da cultura ocidental.
Sua parceria com Schiller também faz parte dessa contribuição. A princípio, as relações entre os dois poetas não foram amistosas. Schiller, no entanto, admirava Goethe, e escreveu uma carta em junho de 1794, convidando-o a colaborar numa revista que fundara. Goethe aceitou o convite com alegria e de todo o coração". Trocam correspondência assídua e as cartas mostram a influência benéfica que cada um exerce sobre o outro. Nesse período, a produção literária de Goethe foi fértil e intensa. Escreveu Hermann e Dorotéia, que tem como cenário os anos turbulentos da Revolução Francesa, e outros, entre os quais Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, que narra as grandes decepções do jovem Wilhem (com quem Goethe se identifica), ao querer tornar-se um autor dramático numa companhia de comediantes.
Em 1805, os dois amigos adoecem simultaneamente. Goethe recupera-se aos poucos, mas o estado precário de Schiller se agrava. Quando o primeiro recebe a notícia da morte do amigo, confessa que perdeu a metade de sua existência. Para se consolar, tenta concluir um drama que Schiller deixara inacabado, Demetrius. Queria assim poder continuar o diálogo com o amigo. O povo alemão costuma ligar inseparavelmente Goethe e Schiller, considerando-os seus dois maiores representantes literários. A eles o país deve uma produção de incomparável importância, que os críticos definiram como "época do Classicismo alemão", consagrando a literatura alemã como das mais importantes da Europa.
No Fausto; uma Tragédia (1808), encontra-se o retrato mais significativo da duplicidade e síntese de sua personalidade. A sensualidade e o ascetismo, a exaltação e o equilíbrio emergem nas duas personagens principais, o Fausto e Margarida. O primeiro quer desvendar os segredos da natureza, tranqüilizando-se somente quando descobre leis seguras que explicam os mistérios antes indecifráveis. A segunda, enlouquecida pelo desespero, é a imagem da jovem que amou apaixonadamente Goethe e por ele foi abandonada. Através das confissões de Margarida expõe o seu remorso e pacifica-se. Situação idêntica se encontra em sua última obra, o Segundo Fausto, que é substancialmente a continuação da anterior. Assim como o Fausto, a vida de Goethe também oscilou entre a sombra e a luz.
Goethe começou a escrever "Afinidades Eletivas" no início do ano 1808. Nesse ano, Napoleão, ao invadir a Alemanha, quis ver o escritor, em cujo nome só se falava, e o condecorou com a grande cruz da Legião de Honra. No movimento patriótico contra a França, ele não tomou parte ativa, preferindo escrever tranqüilamente o seu romance "Afinidades Eletivas", enquanto a luta esquentava.
Goethe, o grande gênio, morreu no dia 22 de março de 1832. Seu espírito cativo, com certeza, num invólucro por demais estreito, num mundo tão mesquinho, exigiu mais amplidão, mais espaço, pediu mais luz e sublimou-se. Morte serena foi o prêmio de uma existência, prodigiosamente dotada dos mais excelsos dons.